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Priscilla III

es-tre-las bri-lham no céu da noi-te ne-gra va-zi-o, não, o-co e-ter-no      “Pronto, sua vez,” ela diz com um sorriso no rosto.    Penso um instante, a ideia surge:   ru-a es-cu-ra luz pe-la cor-ti-na do só quar-to va-go      “O que será que estão aprontando naquele quarto? Já está tão tarde,” indaga Priscilla, nós dois olhando pela janela para o prédio da frente.    Respondo   as-sas-si-no nu cor-ta a mo-ça em pe- da-ços mo-lha-dos      Rimos, ela olha para mim em tom de desafio e diz, ins-tin-to as-sas- si-no, mei-a-noi-te, o- lhan-do ví-ti-ma      Sombrancelha arqueada, aceito e rebato, in-cons-ci-en-te pre-sa ri, i-no-cen-te do seu ver-me-lho      E responde, ban-que-te san-gren- to, mor-ci-lha de gen-te- por-co. de-lí-cia!      “Bom, acho que a graça já passou,” digo.    “Também acho, mas ainda estou curiosa a respeito daqu...

Rosenrot III

     O e-mail chegou poucos minutos após a meia-noite: from: damadanoite837@gmail.com to: me   Bonjour, chéri    Creio já estar ciente de que hoje, no momento em que recebeu esta mensagem, já é o amanhã de ontem. Logo, trate de não esquecer do nosso compromisso que, gostaria de lembrar, foi confirmado por sua promessa. Espero que não tenha esquecido e não venha a esquecer até o sol aparecer.    Se estiver lendo esta mensagem, confirme para mim sua disponibilidade para as 07:30AM desta segunda-feira de nosso caro senhor jesus cristo, dia atual. Aguardando ansiosamente a resposta, Sua mais cara amiga, Rosenrot.    Optei por não dar resposta. Tomei meus comprimidos, me meti entre os cobertores e desejei boa noite ao escuro.    Levantei antes do sol, ou quase, pois meu corpo pesava como tivesse um elefante nos ombros. Precisei me arrastar para fora da came e pelo chão até os sapatos de caminhada, abrindo o guard...

Metheus IV

     “E você se mata quando, Metheus?” Priscilla perguntou enquanto andávamos, subindo a ladeira, no aniversário dele.    “Quando acertarmos as minúcias de nossa paixão, querida” respondeu ele em duro sarcasmo; uma carranca como aquelas que raramente se vê em seu rosto. Mas o de Priscilla, oh, o de Priscilla não foi somente um evento raro, mas um eclipse solar com intervalo de toda uma vida. Maçãs do rosto vermelhas, ela corou. “E então? Quer se matar comigo?”    Ela nada disse, calou-se de forma que nós dois do resto esperávamos a tirada do século, mas esperamos e esperamos e ela ainda assim nada disse. Chegamos ao topo da ladeira ofegantes, reclamando, mas ela não emitia som qualquer, como em sua boca tivesse passado um zíper.    “Tá respirando? Já está tentando se matar, então?” Ele pergunta, mas a resposta é só um olhar indecifrável, para bem dentro de seus olhos, que deixa a todos desconfortáveis.      Cada um so...

Rosenrot II

     “W h en the wooden planks warm up to the warmth of your body, what other freshness can be found in the hot summer day, that will help you ignore your own existence?”, ela recitou do guardanapo. “E então, o que acha?”    “O chão frio ajuda a esquecer de si mesma?”, pergunto depois de um tempo.    “Mais do que um picolé ou um copo d’água, ou a brisa de um bom ventilador.”    “Sabe o que ajuda a esquecer de si mesma? Ar-condicionados.”    “Faz sentido”, responde após curtos segundos de reflexão. “Mas a verdade é que qualquer método de se refrescar num dia quente de verão vai te fazer lembrar de seus problemas. Até o ar-condicionado vai deixar seus lábios secos em algum momento. O ponto é que não há maneira de se esquecer por muito tempo, por conta de suas necessidades, e num dia quente de verão  esse problema é bastante notável. A fresquidão do chão gelado é tão findável quanto qualquer outra ‘solução’ em que se possa po...

Metheus III

  [Tradução na segunda metade do post]    “You know, when I was little grandpa used to say that when I grew up I would change the world in it’s entirety, like, I would change people’s notions of right and wrong and make the world a better place, and receive a Nobel prize for that. He told me that, when I grew up I’d be a great person, and my name would be in the history books and, if he was still alive then, he would be the author of those books... that’s how proud he was of me, how much he had planned for me.    “Grandpa would sometimes call me to his office and offer a sit, but not say anything, just look at me with tears of joy in his eyes, and he would say, ‘You remind me so much of myself, dear’, and tears would finally roll down his healthy rosy cheeks. He looked so healthy, you know? Nobody could ever imagine he would die like that...    “and when grandma locked me in my room to swallow a pile of math books because my teacher said I was ‘to...

O Inconsciente — ou, le temps detruit tout

   O dia tinha começado tão bem...    Estava imensamente preocupada devido a minhas ocupações, estava cansada e queria morrer simplesmente. Mas sabe aquele momento especial que, ainda que curto, muda totalmente o seu estado de espírito? Pois é, veio cedo desta vez. Levantei da cama após dormir alguns minutos, e não podia ter um melhor “push” para iniciar o dia. Ela me desejava uma  ótim a  e produtiv a   manhã. O café não podia ter melhor gosto, e o cheiro de tinta e papel não podia trazer melhores recordações. Eu estava legitimamente feliz. Tudo ia às mil maravilhas. E então começou. Caminhei por alguns quilômetros, resolvi negócios, passei muito tempo na fila do correio, e não podia estar mais cansada como naquele momento em que sentei à minha mesa favorita, em minha cafeteria favorita, e pedi o “de sempre”. A cabeça a ponto de explodir, cada milímetro do meu corpo em um estado anormal de relaxamento; sentia como se estivesse passando por um AVC — há...

Priscilla II

     "Ela é um  su permercado. Experienciá-la é como fazê-lo a um supermercado. O ar congelante do AC, os milhares de produtos diferentes, a resposta para todos os problemas, mas mais ainda, o terror da modernidade corporativa, fria e dura como mármore ", foi o que pensei enquanto balançava seus A cups para um detector de fumaça.    — Não é engraçado que alguém se excite p ela mera visão   de  image ns  em movimento presa s  a uma tela? — Ela p erguntou.    — Ainda é uma evolução. Houve uma época em que o homem tinha nada além de um cartão-postal porn ô  por toda a vida , — R espondi.    — Vamos mostrar para o eles do que a modernidade é feita. Tire as roupas.    — Acho que só você já está bom. Você e a superfície plana  que chama de peito.    — Você nunca reclamou da minha superfície plana . Talvez seja mesmo o suficiente ,  — Abaixa a camisa .  — Ou será que ele prefere p...

Metheus II

     Agora finalmente tinha um amigo, Mets, que substituiu mamãe no dever de melhorar minha vida social. Antes de chegar, sua melhor amiga era outra, e após falar de mim para ela fui convidado a participar da comemoração de fim-de-temporada dos esportes casuais, para que nos encontrássemos. A festa estava acontecendo no quintal de uma propriedade no fim do mundo, e quando cheguei o Mets já estava lá para me receber. Vestindo uma camiseta com a capa do Metal Up Your Ass tão longa que parecia um vestido, e sapatos Converse nunca lavados, os olhares de julgamento pesaram, vindos da multidão de camisas Ralph Lauren, e juro que teria morrido ali mesmo se o Mets não estivesse rindo incessantemente desde que me viu.    “Você realmente não sabe se vestir” Diz ele entre gargalhadas, me arrastando para dentro da casa. “É um punkzinho de merda, como nunca duvidei?” Meu rosto mostrava claro desapontamento enquanto esperava, de braços cruzados, que a maquilagem de palha...

Metheus

     Mudar-se para uma cidade nova sempre será uma experiência ruim, ainda mais quando se é uma criança; ainda mais quando a cidade tem 3ºC a mais do que se está acostumado; ainda mais quando está cheia de pessoas de uma raça que nunca viu antes; ainda mais quando se perde três meses de vida vegetando sobre uma cama numa depressão profunda por ter sua vida virada ao avesso. Era eu naquela cama, sem qualquer linha de pensamento, vendo minha mãe chorar sentada logo ao lado por seu único filho ter se tornado uma estátua-viva. Mas nada do que foi tentado me tirou daquele estado senão meu próprio corpo, quando voltei a pensar, ver, falar. Voltei à vida tão de repente e sem aviso como quando bati o ponto para sair de férias.    O trauma mexeu bastante comigo e precisei de terapia para voltar a andar normalmente, falar normalmente, e um time de psicólogos passou a me atormentar seis dias por semana. Drogado em todas as horas do dia, perdido na vida, lendo e relend...

Priscilla

      Ela me liga no meio da noite chamando para um programa com o Mets, e aceito num piscar de olhos. Vem me pegar de carona mas não passamos na casa de mais ninguém. Em vez disso dirigimos em silêncio, faróis apagados, sem outro carro ou pessoa nas ruas, só nós, e depois de quase uma hora ela diz algo.      “É lindo, não? Pessoas são o recurso principal na construção de cidades, mas é tão mais bonito sem elas”, fala quase para si mesma, sem tirar os olhos da estrada. “Dirigir a esta hora é como caminhar num museu vazio. Nada de artistas, guardas, visitantes; o único ruído sendo seus próprios passos. Você pode apreciar o trabalho da humanidade sem o fardo da própria humanidade.” Não respondo, mas consinto. Coloco a cabeça para fora da janela e sinto a brisa. Os postes de iluminação indo e vindo num padrão estrito; os prédios, lares, com pessoas dentro, agora somente um elemento daquele quadro. Ela põe uma fita para tocar, Bohren, meu favorito, e percebo al...

Rosenrot

          Entro no banco para o exercício mensal do pagamento de contas, mecanicamente, perdido em meus pensamentos. Uma voz familiar indaga, levanto os olhos e não acredito na minha sorte. Rosenrot à minha frente. O nervosismo a fazendo morder o lábio inferior, eu tão surpreso quanto é possível num momento destes. Não dizemos nada, perdidos nos olhos um do outro. As lembranças de um passado de terror e intrigas, apagadas pelo tempo e que ressurgem de seus vestígios como uma atemorizadora onda e nos encharca. Ela está linda como sempre foi; a forma a que sempre me senti atraído. Sabe de sua própria beleza e porta roupas leves que deixam ver a alvura da pele nua. As ancas largas e a altura a fazem parecer uma amazona, e é isto o que é, uma Vênus amazona, Calíope guerreira que mata com graça. Podem-se ver as veias azuladas na pele exposta, junto a um curto pontilhado de sardas. As madeixas finas e rubras; agulhas que perfuram minha alma com a lembrança de quando a...