Posts

Metheus II

     Agora finalmente tinha um amigo, Mets, que substituiu mamãe no dever de melhorar minha vida social. Antes de chegar, sua melhor amiga era outra, e após falar de mim para ela fui convidado a participar da comemoração de fim-de-temporada dos esportes casuais, para que nos encontrássemos. A festa estava acontecendo no quintal de uma propriedade no fim do mundo, e quando cheguei o Mets já estava lá para me receber. Vestindo uma camiseta com a capa do Metal Up Your Ass tão longa que parecia um vestido, e sapatos Converse nunca lavados, os olhares de julgamento pesaram, vindos da multidão de camisas Ralph Lauren, e juro que teria morrido ali mesmo se o Mets não estivesse rindo incessantemente desde que me viu.    “Você realmente não sabe se vestir” Diz ele entre gargalhadas, me arrastando para dentro da casa. “É um punkzinho de merda, como nunca duvidei?” Meu rosto mostrava claro desapontamento enquanto esperava, de braços cruzados, que a maquilagem de palha...

Metheus

     Mudar-se para uma cidade nova sempre será uma experiência ruim, ainda mais quando se é uma criança; ainda mais quando a cidade tem 3ºC a mais do que se está acostumado; ainda mais quando está cheia de pessoas de uma raça que nunca viu antes; ainda mais quando se perde três meses de vida vegetando sobre uma cama numa depressão profunda por ter sua vida virada ao avesso. Era eu naquela cama, sem qualquer linha de pensamento, vendo minha mãe chorar sentada logo ao lado por seu único filho ter se tornado uma estátua-viva. Mas nada do que foi tentado me tirou daquele estado senão meu próprio corpo, quando voltei a pensar, ver, falar. Voltei à vida tão de repente e sem aviso como quando bati o ponto para sair de férias.    O trauma mexeu bastante comigo e precisei de terapia para voltar a andar normalmente, falar normalmente, e um time de psicólogos passou a me atormentar seis dias por semana. Drogado em todas as horas do dia, perdido na vida, lendo e relend...

THE LOST TAPES Vol. 3

     I had a weird dream, and it went something like this.    Reporting this strange case for television, I interviewed a couple of sisters, Siamese twins, that were connected by their feet. The right side of the right foot of one, to the left side of the left foot of the other. They were in their twenties and lived a somewhat normal life, at least to the limits of what one might call normal. In the interview they did fine talking about the stresses of their conjoined lives, but then, out of nowhere, one of the sisters asks the other in marriage. The latter doesn’t seem to know what to do, not only for not wanting to admit to incest in national television, but also for not wanting to marry her own sister. She didn’t say no, but also she did not say anything, wanting to run away from that awkward situation but being stuck to the very object of her fright.    Open-mouthed and wide-eyed I woke up from my third of a lucid dream and went on w...

THE LOST TAPES Vol. 2

     Robert and Lily were the happiest couple I've ever met. Passing through the street they lived in meant being greeted with dirty paw marks and happy licks all over. They were dogs, by the way, and shared a nice little dog house owned by Lily; Robert slept on the porch because he was too big. I've played with them countless times, and even gifted them some treats from the local pet shop. Robert and Lily brightened plenty of my gray mornings and became real friends.    Lily was la plus douce chienne covered in short caramel fur, and Robert was a huge black dog that resembled Leviathan; and despite their differences, they were perfect for each other, living happily together their whole lives.    On a Monday morning I went to work as always, expecting to play with them on the way, but upon arrival all I found was a very sad Robert silently watching Lily sleep inside the dog house. I called him. "Hey, boy.” He noticed me and walked slowly in my dir...

THE LOST TAPES Vol.1

   Inventei uma nova modalidade de dança: o viver. Sou Deus. Sou eu quem faz a realidade de mim, tudo o que há em volta é feito de eu e estou farto de mim, tanto que quero me deixar de lado e dizer para ela o que ela é (para mim), como ela é (para mim) e o que significa sua existência (para mim).    Ela não é, ou foi, não, ela não é a primeira musa a me agraciar a poesia com suas formas metafísicas de amor e de beleza, mas com certeza foi a última. Não que não enxergue mais a beleza das musas, mas porque desde que ela apareceu (e se foi) ninguém pôde se comparar, com seus atos, à pessoa que ela deixou em minha memória. É realmente uma moça especial que brilha como o sol, e cheira como as margaridas que planto no quintal de casa: um arbusto que fica lindíssimo na primavera.    [...]Ela a quem presenciei momentos bobos, alegres e também tristes e extremamente enfadonhos. Ela com quem sonho regularmente e enxergo nas damas mais formosas dos romances,...

um sorriso torto

     Eu estava no ponto de ônibus após um dia terrivelmente cansativo. Tinha caminhado muito, resolvido muitos afazeres, não comi nada e meus níveis de estamina decaíam para números negativos. A enxaqueca me matando como de costume, e as luzes dos faróis na maldita avenida somente pioravam minha situação. Estava morrendo e minha feição carrancuda não espantava somente os espíritos ruins, mas todo e qualquer espírito a minha volta; o pouco descanso que tinha era no longo piscar de olhos, mas mesmo isso doía, pois a poluição faz tudo doer nas metrópoles. Não podia manter os olhos fechados, pois tinha de prestar atenção no ônibus que devia ter chegado há vinte minutos.    Tudo a minha volta parecia estar contra mim. As pessoas falavam alto demais, os carros faziam barulho demais, e todo o resto simplesmente ocupava o espaço de um potencial calmante vazio. Nada parecia salvar aquele dia a não ser minha tão esperada chegada ao lar, acompanhada da aspirina mais f...

Priscilla

      Ela me liga no meio da noite chamando para um programa com o Mets, e aceito num piscar de olhos. Vem me pegar de carona mas não passamos na casa de mais ninguém. Em vez disso dirigimos em silêncio, faróis apagados, sem outro carro ou pessoa nas ruas, só nós, e depois de quase uma hora ela diz algo.      “É lindo, não? Pessoas são o recurso principal na construção de cidades, mas é tão mais bonito sem elas”, fala quase para si mesma, sem tirar os olhos da estrada. “Dirigir a esta hora é como caminhar num museu vazio. Nada de artistas, guardas, visitantes; o único ruído sendo seus próprios passos. Você pode apreciar o trabalho da humanidade sem o fardo da própria humanidade.” Não respondo, mas consinto. Coloco a cabeça para fora da janela e sinto a brisa. Os postes de iluminação indo e vindo num padrão estrito; os prédios, lares, com pessoas dentro, agora somente um elemento daquele quadro. Ela põe uma fita para tocar, Bohren, meu favorito, e percebo al...